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segunda-feira, 21 de agosto de 2017

do tempo e do sentido...



seu rosto é um vale de sombras
com riachos a marulhar
recorda-lhe a vida que podia ter tido
mas já não faz sentido
nem sequer recordar,
o tempo lento a devora
o peito lhe golpeia
é o ressoar da hora
é o ficar presa na teia,
é a obscuridade
tirando-lhe até o júbilo da saudade
os sonhos, a vida
despoja-a de tudo, como um eterno inimigo
deixando-a sem porta de saída...

tempo predador, onde não existem sorrisos
e é em vão a vida sem resplendor
tão pouco existem estrelas, nem o azul do céu
e nem ninguém ouve o grito seu,
sente apenas agora aquele cansaço
e a sensibilidade doente
a recordação constante numa lufada quente,
é ave trémula que se agita ao vento
distanciando-se cada vez mais
no firmamento...

o tempo traz-lhe o pavor do desconhecido
cambaleia... em todas as direcções
a sua única ideia é fugir
caminha cada vez mais depressa
uma voz se faz ouvir, porém não quer
nem mais uma palavra de ninguém.

natalia nuno
rosafogo






segunda-feira, 14 de agosto de 2017

sonhei contigo...



cheguei-me à borda da encosta
crescia em mim tanto alvoroço
sonhar assim, quem não  gosta?
 ver-te do outro lado ainda moço

ficaram meus olhos enfeitiçados
em chama acesa, forte pavio
e meus braços ali desamparados
esperando-te nesta tarde de estio

as minhas mãos de giesta feliz
aguardam o romper do nevoeiro
num tempo perdido que lhes diz
que voltarás... para elas inteiro

sei bem, são sonhos, são ilusões
grãos de pó, tudo eu inventei!
desdobrei em nós as estações
estrelas em nosso olhar semeei

lavrei a terra do amor no peito
nos rostos sulcos desbravados
somos rios com o mesmo leito
trazemos sonhos a nós atados

no adeus à tarde, quero-te tanto!
em meu colo repousa teu cansaço
c' mansa ternura aquieto o pranto
perde-te em mim, em meu abraço

natalia nuno
rosafogo


sexta-feira, 11 de agosto de 2017

a lembrança em mim...




a lembrança é um caminho de mansidão
um abrigo dócil na minha mente
é trazer o passado no coração
e de repente...
um lume aceso que me aquece
por instante, mesmo dele distante.
momentos que voltam, para logo fugir
lembrar é algo com sentido,
- é sentir,
é trazer de amor o coração vestido.

lembrar os verdes esvaídos da beira rio
lugar de encontro, de ficar em silêncio
hoje sinto- lhe meu próprio vazio
à infância rumei,
desço a ladeira que antes pisei
e ali me retenho...por mim!
para matar esta sede da saudade sem fim.

apaziguo- me com o tempo que me censura
deixo por lá minha alma
abraço o rio, só ele me acalma
comove-se o salgueiro, despeço-me com ternura
lembranças, molho de açucenas  com aroma
a saudade...caules de aloés,
chão tão meu, onde descalça descanso os pés,
enquanto pássaros cantam na margem do verão,
açoita o inverno o meu coração...

natália nuno
rosafogo


segunda-feira, 7 de agosto de 2017

nó na garganta...



porque não vens quando te chamo?
o sono não vem traz-me cinza ao olhar
e o peso da saudade...é porque te amo
os sonhos dissipam-se deixo de sonhar

o nó que se prende na minha garganta
tão grande, tão grande q' nem se mede
mas a esperança é tanta, tanta... tanta!
que o coração sempre mais amor pede

gira ...gira,  sempre a roda da sorte
quem sabe algum dia roda da fortuna
gira esta minha vida já sem norte
longe vai  o amparo de coisa alguma

quero passar da vida o resto
como um sonho, em esquecimento
esperando todo o tempo por um só gesto
doce, uma terna voz trazendo-me alento

os prazeres o tempo vai apagando
trago o bolor do tempo nos abraços
a ti me conduz, vai-me encaminhando
só ele sabe da firmeza dos meus passos

pássaros cegos em meus olhos a voar
volteiam, volteiam, bem no interior
por entre folhedo verde do meu olhar
mantêm  meu rosto sem prazer nem dor

sinto o vazio nas margens da saudade
o céu acinzentou... o dia ficou pardo
se te chamo e vens, reina a felicidade
lembro-me donzela ... a flor do nardo.

natalia nuno
rosafogo





terça-feira, 25 de julho de 2017

a ti me prendo



já escuto a madrugada
houve últimos adeus à vida,
e uma dor mal contida
nesta noite de mim se apoderou
e o meu coração gelou...
e a terra que dava frutos e semente
escutou a minha dor
os grilos não cantaram mais
e tudo se calou
a vida quer levar-me de raspão
partiu a minha gente
sem se despedir
restaram os ais...
a tristeza aos outros não revelo
fico na dor a reflectir

a vida quer levar-me de raspão
 mas eu sou tenaz e luto sem tempo
nem paz, ponho a trote o coração
já escuto a madrugada
meu corpo comparo com espuma do mar
desfeita, quero ainda assim ser amada
e amar, amar-te e no teu corpo me afundar
deixar que o sol viva em mim
aprender de novo a primavera
ser outra vez flor do alecrim
e espera...me espera,
que eu volto à cama onde a chama ateará
e nosso amor  como fénix renascerá
as nossas mãos nunca mais estarão frias
estarei sempre por perto trazendo
centelhas do sol a dourar nossos dias

natália nuno
rosafogo



segunda-feira, 24 de julho de 2017

idade sem data




com laço de seda cingi a cintura
fiquei a menina da brincadeira
ouvi as vizinhas dizer com ternura
sai à mãe quer queira, ou não queira

debruço-me à janela, o mundo é meu
ouvindo as pombas num arrulho louco
já se põe o sol, escurece o céu
e os lírios vão crescendo. pouco a pouco

mil vezes se repete  minha imagem
nas águas do rio que corre por perto
a mágoa vive o sorriso está de passagem
já nada regressa e é o futuro incerto

surge a dama da noite, toda claridade
adormecem as margaridas no monte
preciso de afecto mas vem a saudade
que percorre hoje e amanhã m' horizonte

e as bonecas de trapo sorriem pra mim
choram os salgueiros a sua solidão
com as tílias em pranto vão chorando assim
mas a mágoa é minha consomem-se em vão

já não sou menina sou mulher feita
sou raiz funda agarrada a este chão
a palavra é minha garra que quero perfeita
só o tempo me traz  profunda solidão

pode a saudade gritar-me na garganta
pode o vento voltar de novo quedando-se no jardim
narcisos deixarei em poesia ...tanta!
que também restará  saudade de mim...

natalia nuno
rosafogo

sábado, 22 de julho de 2017

outono adentro...



meus cabelos repartem-se em pedaços
de prata, brilhando de claridade
e na sombra escura do meu olhar
brilha a saudade...
sossego a dor sem pranto
só a minha queixa  a denuncia
enquanto ela tece a trama
de mais um dia
choram no jardim as rosas e os crisântemos
ao ver-me assim de voz quebrada,
perto dum tempo que me desanima
ao olhar a fotografia que me detém desde
menina...

tempo vivido em minha pele
tempo de outono adentro
tempo que me é infiel,
cinge-me desdenhoso, traz-me
imobilidade, tempo que me oferece
apenas
saudade...

crescem-me asas no pensamento
mas sem alento aonde vou
nesta claridade emprestada
onde já nada sou?
e memória prevalece
mas e o corpo? já esquece!
arrancaram-me as portas
sou pássaro vagueando em ramos
de folhas mortas
se lágrimas me virem verter
em alguma ocasião
não liguem não,
não é dor, não é sofrer
é tão sómente saudade no coração.

natalia nuno
rosafogo