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quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

lembranças saudosas....




hoje lembrei a adolescente que conservo na lembrança com comovido afecto, e recordei-a feliz e descontraída, no seu sapato alto e saia reduzida, orgulhosa da sua aldeia e da sua gente que apesar de pobre, era rica de sentimentos, sendo eles que deram sentido e esperança ao desabrochar desta adolescente. hoje, lembrei também dos rapazes de mãos rudes e palavras desajeitadas e dos bailes onde sonhava ser princesa sem castelo....há diariamente uma história que conto a mim própria que jorra desta fonte que é meu passado, ora alegre ora sombria mas sempre viva... a aldeia e eu seduzimo-nos mutuamente, há recordações que acarinho e evoco nas minhas horas sombrias e assim me vou distanciando da solidão dos dias, sentindo que agora sou de novo um ponto ínfimo no fim da caminhada... devora-me o tempo, só a Poesia me  conforta e a memória é ainda guardiã do arquivo onde guardo todas as lembranças... lembranças que me segredam os azuis do arco íris que preciso para voar, se inclinam sobre mim com ideias risonhas e me afastam pressurosamente do ser que sou agora...

natalia nuno
rosafogo

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

pequena prosa...


Cada homem tem uma história para contar,
leva a vida como pássaro, a granjear a subsistência
caminha por atalhos cinzentos com a chuva dentro dele,
desde que nasce o sol até que se despede de si com o corpo cansado
desposando o sono e derramando o seu desejo nesse repouso,
onde como rio se afasta... aguarda a madrugada para renascer de novo
de mãos vazias, apenas o coração a bater... e o afecto que nele nutre por alguém que o traz ainda embriagado, algum rumor antigo que lavra na sua memória, que evita lembrar, para não se sentir de novo abandonado e para que os olhos não voltem a chorar desamparados... abre o dia e ilumina-se a noite e ele neste vai vem até esquecer a idade e sentir o sabor amargo da travessia...abandona-se à sua verdade como se fosse uma folha em branco de onde já não quer sair...sente nos ossos o som da morte que ao longe caminha sorrateiramente...

natalia nuno





pensamento



Sobre o mar sereno dos pensamentos, surge de quando em quando uma nuvem negra que se avoluma e faz bater o coração a um ritmo quase doloroso...

natalia nuno

hora calada



casa branquinha
minha velha casinha
ainda ouço nela
as gargalhadas sonoras,
dizia a mãe: ri-te, ri-te
que logo choras!
na janela os raios de sol
o sino da igreja bate as horas
as horas mansas, mornas, ternas
aos meus ouvidos eternas.
soam-me ainda os ais
da avó de luto vestida,
e as rezas que nunca eram de mais
para agradecer a Deus a vida.

casa velhinha
hoje assombrada
onde as almas deambulam
p'la  calada

os ramos frágeis do salgueiro
caindo sobre o  poço
agora sem burro à nora
nada ali já ouço...
na nostalgia desta hora
só permanece da terra o cheiro
minha última sensação
o destino marcou, e o tempo
vai -me levando o coração
resta-me a lembrança
foi Deus que assim quis
que apesar da mágoa, foi ali
que fui feliz!

natalia nuno
rosafogo

eu e tu, apenas...



puseste a mão na minha cintura
vi estrelas na noite a brilhar
eras um rio de ternura
de mansinho na madrugada,
em mim a desaguar
tantas lembranças serenas
tempo de fascínio, o pulsar da magia
eu, e tu apenas
a quebrar o silêncio na casa vazia
deixei-me aprisionar
até que o dia a noite afogou
e trouxe gotas de mel ao teu olhar
que o outono suavizou...

sinto a leveza do vento
o perfume dos teus beijos
é o momento para cair de novo
no abandono dos teus braços
alheia à vida, numa volúpia tardia
amar, amar era o que mais queria
na margem do teu rio que me abriga
numa plenitude sem idade
enquanto um bando de pássaros
canta lá fora a sua cantiga.

fica o coração abater em lentidão
surge a saudade,
como um último vento de verão
e na aurora do desejo... só mais um beijo.

natalia nuno
rosafogo






















terça-feira, 12 de dezembro de 2017

quem se lembra amanhã...



quem lembrará amanhã
de meus versos de saudade
desta tristeza que trago
que escrevo e não apago
ao recordar da mocidade

quem lembrará amanhã
meu nome escrito na folha
 talvez algum sonho o acolha
oração que lhe dê guarida
e assim me lembre em vida

quem lembrará amanhã
do Poeta que Deus fadou
dos queixumes, desta fome
da saudade que o consome
 da solidão que testemunhou

quem lembrará amanhã
o brilho da sua imaginação
os lábios que a sombra calou
a alma que a morte devorou
a melancolia que traz no coração

quem lembrará amanhã
do sofrimento e do pranto
do vendaval a correr
do padecer que é tanto
deste gosto de sofrer...

mas, quem amanhã me lembrar
que saiba que m' sonho é verde
hei-de escrever até cansar
até...que a memória se perca
a tempestade me quebre
a vida me seja breve,
e a morte me leve.

natalia nuno
rosafogo


terça-feira, 5 de dezembro de 2017

na poeira do tempo...



na poeira negra do tempo
há flores que se desfolham
num torpor sonâmbulo e gelado,
já nenhuns olhos as olham
com olhar apaixonado
foram  flores de verde pino
de olhos verdes expressão bravia
suave ou triste foi o destino
de melancolia hoje seu dia a dia.

o tempo cria caricaturas sem dó
tira-lhes o brilho que tinham outrora
e o sorriso que as faces iluminava
pétala a pétala lhe deixam só
a saudade, que as persegue hora a hora
a saudade magoa-as, quebram-se num
silêncio cismando em tudo e nada
e há lembranças que nem chegam a abrir
quando a memória é já de si delicada

flores que teimam em não morrer
expostas ao inverno e às nortadas
alimentam-se de sonhos, querem ser amadas
ressuscitam sentimentos de tanto querer.
um murmúrio de água na voz perdida
no âmago ainda a idade de ouro
e os olhos desencantados a prender-se à vida
quando a noite é já pálpavel

natalia nuno
rosafogo